Músicas

segunda-feira, 24 de março de 2014

Dedicatória Íntima ''por James D. Schark"

Começou por ser um prostituto de rua. 
Por ser extremamente bonito, cedo passou a trabalhar num casarão com entrada discreta para viaturas, num dos bairros mais nobres da cidade, com direito a quarto individual, comida e roupa lavada. Uma folga por semana.
Um dia, numa sessão com um cliente, conheceu um produtor de filmes porno. Aceitou fazer um teste que correu bem. Passou a fazer filmes por prazer, porque era a prostituição que o poderia tornar rico.
Conheceu países e outros mundos, pela mão de senhores que davam em dinheiro aquilo que lhes faltava em companhia. Rodou nas altas esferas. Viveu do bom e do melhor.
Em determinada ocasião, decidiu passar a escrito a sua história, alguns dos momentos da sua vida, aqueles que considerou mais interessantes. Descreveu-os na primeira pessoa, aligeirando os episódios mais pesados.
Somos amigos de ainda antes ele ser prostituto de rua, quando saíamos para ir ao cinema, quando íamos juntos para a escola. Até a vida nos ter separado geograficamente.
Soube, pelas redes sociais, que o seu livro saíra. Dei-lhe os parabéns. Trocámos "LOLs" e "AHAHAHAHAHAHs" e "KKKKKKKKKKs" ao relembrarmos tempos antigos, inocentes, porém carregados com o meu desejo.
Transmiti-lhe a minha vontade de ter um exemplar do seu livro. Perguntei-lhe como e onde o poderia comprar. Informei-o do meu desejo de ter uma dedicatória sua.
Disse-me que me informaria assim que estivesse à venda. Que, por enquanto, fora, apenas, o pré-lançamento.
Quinze dias depois, numa nota dos correios, fui informado de uma encomenda em meu nome. Registada. Quando a levantei, verifiquei que era o livro. Ele tinha-mo enviado. Num pequeno papel manuscrito, dizia-me que, não só o autografara, como incluíra uma dedicatória.
Abri o livro, mas não consegui descolar as páginas 5 e 7. À transparência via a sua assinatura a azul. Mas, depois, uma mancha gigante de esperma seco colava as páginas onde ela se encontrava.
Era a dedicatória pela qual muita gente pagava. Literalmente.

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